Para melhor ler este blog, entenda o seu funcionamento

Ele tem quatro partes que são desenvolvidas a cada postagem. Primeiro, Atualidades. O dia-a-dia do autor, os comentários da vida recente. Segundo, o Passado. Passado do autor, em ordem cronológica, iniciando em seu nascimento. Se quiser pegar do início às primeiras postagens. obs: Este método de fazer blog, visa o rascunho de uma auto-biografia, onde o passado é constantemente comparado com o presente e, com o tempo, o alcançará. Então, estará pronta a auto-biografia. Outra vantagem do método é a comparação constante do Domingos do passado, com o do presente. Ou seja, atenção constante da pergunta: Como é que aquele homem virou este?! Terceiro, legado. O legado tem por fim colocar sobre a mesa, história, personagens, situações que, sozinho, jamais desenvolverei. No legado eu tento (já consegui!)arranjar colaboradores. Você não quer escrever em parceria com Domingos Oliveira? E a quarta parte, foi chamada de auto-ajuda mas passou a se chamar 4 ou 5 coisas que eu sei da vida, uma série de conselhos úteis que me ajudam a viver, podendo, portanto, ajudar também aos outros. Resumindo, minha humilde parcela de sabedoria. VOCÊ PODE LER TODAS AS PARTES OU AQUELAS QUE QUISER.

sábado, 17 de janeiro de 2009

DOGMA FÚRIA


Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2009
Casa de Cultura Laura Alvim

O DOGMA DO FÚRIA

1. Fazer com que o DOGMA FÚRIA se transforme em padrão de qualidade. O DOGMA não é obrigatoriamente uma declaração de pobreza.



2. Todo grupo tem de ter seu líder. Ou diretor. O diretor, no caso, Domingos Oliveira, não é um cargo. É uma função. A função de ter a última decisão sobre qualquer assunto que concerne ao grupo. O diretor é uma pessoa eleita pelo grupo pra realizar essa indispensável função.



3. O caso de discordância inconciliável do grupo com seu diretor representará para nós um momento de alegria, posto que representa a criação de um novo grupo (que deverá chamar-se Fúria 2) representado por outro diretor.



4. As aulas, palestras, transmissão de conhecimentos e até notas de ensaio feitas pelo diretor do Grupo Fúria devem ser lições de liberdade e conter sinceramente a máxima de Nietzsche, “quem for meu discípulo que não me siga”.



5. O ator tem a obrigação de seguir, mesmo discordando, as instruções do diretor. Fazer com toda a entrega duas ou três vezes. Se ainda assim discordar, deve criar uma contenda séria com o diretor. Chegam a um acordo ou mesmo a destruição do projeto. Não queremos por aqui atores obedientes.



6. Há algo no ator que depende do que ele é. Os invejosos, autopiedosos, excessivamente competitivos serão naturalmente excluídos do grupo.



7. No grupo é exigido gentil e respeitoso convívio social. O ensaio de teatro já é uma representação. Todos os problemas pessoais, tudo o que impede o bom funcionamento teatral, deve ser deixado na porta do teatro. O ânimo de um depende do ânimo do outro. Assim sendo esperado um sorriso, cumprimentos gerais a todos, por mais falso que isso seja.



8. O mais importante do teatro é o ator. Depois o autor. Por último, o diretor.



9. O personagem não existe. O que existe é a pessoa do ator. Se transforma em representação através da livre de todas as capacidades humanas. A imaginação. O teatro é primado na imaginação.



10. O ator. Embora secundário, posto que trabalha em função do texto e do diretor, deve ser a base do processo. É ele quem vive a mais transcendental aventura. É ele que, através da generosidade, cria um vínculo com a platéia.



11. A finalidade máxima do teatro é resgatar o sonho e formamos todos uma consciência só. De que a consciência coletiva existe. Quando um ator consegue entrar na mesma freqüência de pensamentos da platéia, o milagre se dignifica. A utopia é alcançada.



12. Como organização, o Grupo Fúria concede o segundo lugar de importância aos que trazem o dinheiro necessário para fazer o espetáculo, seja através de patrocínios ou quaisquer outros processos, para que o teatro seja possível. A função de lotar o teatro será oficializada e nomeada no Grupo Fúria. Esta equipe (envolve a divulgação, a feitura e controle do orçamento e muitas outras coisas) deve ser escalada com a máxima atenção e rigor do grupo. O que não impede que assumam também funções de ator e etc.



13. O Grupo Fúria admite as limitações da democracia. Lá não são todos iguais. No que diz respeito à divisão de cotas. Serão respeitadas as importâncias dos seus trabalhos, recompensar a todos igualmente é sempre uma meta para ser atingida. Porém raramente é uma coisa justa e funcional. No caso atual, 50% da bilheteria vai para a cooperativa e 50% para fundos do grupo, o que permitem trabalhos futuros. Todos os captadores ou lotadores de sala terão uma comissão proporcional ao resultado.



14. O Grupo Fúria não é uma fábrica de teatro. É uma fábrica de arte. A arte é a finalidade. Acreditamos no valor social da arte. Acreditamos que sem arte é a barbárie. Que é uma atividade de utilidade pública. E exigimos ser tratados como tal. Posto que somos artistas.



15. O sucesso será para nos uma preocupação secundária. A arte pela arte é o objetivo final. Somente artistas de experiência ou excepcional talento podem definir o que é a arte ou não.



16. O Grupo Fúria almeja a permanência. A sua obrigação principal é que todos os membros do grupo estejam todo o tempo num processo de feitura teatral. O grupo tem princípios dos quais todos devem compartilhar. Princípio 1: Terminar tudo aquilo que começa. O Grupo Fúria não se reduzirá a produção de espetáculos. Criará também continuamente outros movimentos culturais. Cojita-se para o próximo fevereiro uma série de leituras / performances de textos que têm possibilidades de ser o próximo espetáculo do grupo e de planos pessoais de Domingos Oliveira dos quais, de alguma forma, o grupo possa tomar parte.



17. O teatro é o último reduto da inteligência livre. Muito mais comprometido do que a TV ou o cinema. O teatro é o púlpito, é o palanque das idéias revolucionárias. Sempre foi assim desde Castro Alves.



18. O grupo deve, todo ele, unir-se no esforço de conseguir patrocínio para o grupo. A moldes que outros grupos possuem.



19. O grupo planeja e data suas estréias independente dos patrocínios. Não se pode depender de fatores aleatórios. Tendo dinheiro, fazemos. Não tendo, fazemos também.



20. Fazem parte do Grupo Fúria todos os atores, técnicos e participantes do Apocalipse e mais todos aqueles que acompanharam Domingos Oliveira ao longo da vida em sua carreira artística. A lista completa dos nomes será publicada aqui brevemente.
Muitas e muitas coisas ainda estão faltando nessa primeira versão do DOGMA.



21. Por isso, paramos no item 21 comemorando assim a maioridade do Grupo Fúria.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Aviso aos Transeuntes

Lembramos que este blog está temporariamente sendo postado no site da Bravo!
este é o endereço:
http://bravonline.abril.com.br/blog/domingosoliveira/
Muito obrigado
e desculpem o transtorno.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

ATENÇÃO, ATENÇÃO!!!


Atenção, atenção, meus companheiros bloguistas. Esta semana o blog não será renovado por dois motivos: primeiro, porque a partir da semana que vem, quarta-feira, 22, ele passa a funcionar além desse endereço, através do blog da Revista Bravo!, tendo assim maior visibilidade. Segundo, porque ando ocupadíssimo, me desculpe, peguei a gripe Obama, além do que meus filmes passam em sessão dupla no Festival de São Paulo! Apareçam todos, paulistas, se puderem. Cada filme passa três vezes, horários no jornal. "Juventude" e na sessão seguinte "Todo mundo tem problemas sexuais". Sensacional!!! Não vejo sessão dupla desde o Cinema Crispim, em pulgueiro de Botafogo, dos tempos de Tom Mix. Só que dessa vez não vai ter filme-em-série, que pena!

Até já, divirtam-se com os filmes e votem em mim! Porque o juri popular dá prêmio em dinheiro!!!!

sábado, 11 de outubro de 2008

Postagem Especial




Comunico aos meus bloguistas e blogueiros (bloguista é quem lê e blogueiro é quem faz, fica combinado assim?)

Caríssimos blogueiros,

É com imenso prazer que anuncio que o DVD de "Carreiras", depois de um ano de atraso e muitas brigas está finalmente nas locadoras! E um filme sensacional, com Priscilla Rozenbaum radiante baseado na melhor peça de Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha).
Trata-se de uma longa noite de loucuras onde a personagem "Ancora" de um famoso jornal de Tv joga tudo para o alto, cheira em cena 19 carreiras de cocaína e, pela manhã, resolve sua vida de um modo surpreendente.

Vejam e me escrevam com as suas opiniões.


sábado, 4 de outubro de 2008

Inscrições para o Workshop

Gente, esquecemos o principal.
As inscrições para o workshop são pelo email

workshop.domingosoliveira@gmail.com

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O grande esforço humano é justificar a própria vida. Provar que ela vale a pena ou que tem alguma utilidade. Ou alguma chance de eternidade. Então, inventamos turbilhões dos mais variados, ando sendo sorvido pelo meu um pouco em demasia. Em que grau de ilusão deve um homem viver? Na que ele quiser. Porém o mais longe possível da realidade. Para mim esse mês, inventei um aniversário, Festival do Rio etc. E vou dar um curso. De teatro. Exatamente isso. Um curso para dizer tudo o que sei, um curso para montar uma peça depois (“O Apocalipse, segundo Domingos Oliveira”). Um curso para tirar um grupo de atores com maior disponibilidade, atores jovens, como faz Antunes, o Théâtre du Soleil e a galera do Flamengo. Meus atores prediletos (Priscilla, Ricardo, Dedina, Orã, as Clarices Derziê e Niskier etc) são hoje gente madura, com dificuldades de tomar compromissos. Cada um com seus problemas e projetos. Raramente dei cursos práticos. Penso que não dá nunca para fazê-lo conseqüentemente mas com a peça a encenar, aí faz mais sentido.
Grupo nunca quis ter. Grupo é família. E família já tenho. Mas agora mudei de idéia. Está na hora de ter o meu grupo, independente, constante. Se algum dos atores ou atrizes tentar me colocar na posição de pai, o que acontece sempre com os grupos, mando-os à merda e pronto. De modo que está fundado o Grupo Fúria, gosto dessa palavra, Fúria. Acho que é necessária no teatro e na vida. Fúria. Fúria.
Aqui segue o release deste novo trabalho, na íntegra.

WORKSHOP DE
DOMINGOS OLIVEIRA
NOVEMBRO DE 2008

CRIAÇÃO DO GRUPO FURIA
O workshop tem por finalidade compor todo o elenco da peça inédita “O apocalipse segundo Domingos Oliveira”. Uma comédia filosófica que ficará em cartaz durante os três primeiros meses do verão carioca de 2009, na Casa de Cultura Laura Alvim.

Domingos Oliveira, famoso diretor de cinema e teatro, sempre quis ter um grupo dele, um grupo contínuo, porque acredita, como todo homem sério do palco, que o melhor teatro virá sempre do trabalho em grupo.
Comemorando seus 72 anos, Domingos decide montar seu grupo oficial. O
GRUPO FÚRIA
O Grupo Fúria pretende ter uma atividade contínua, dialética e intensa. Certamente terá relevância no futuro próximo do Teatro Brasileiro.
Os atores com quem Domingos sempre trabalhou, Priscilla Rozenbaum, Ricardo Kosovski, Clarice Niskier, Dedina Bernardelli, Clarisse Derzié Luz, Bernardo Jablonski, Pedro Cardoso e muitos outros, são desde já membros honorários do grupo e formarão um natural conselho consultivo para suas atividades.
Faz parte do dever cultural do verdadeiro homem de teatro juntar em torno de si os melhores talentos que, por juventude ou outra circunstância qualquer ainda não estão inseridos no mercado e se possível reuni-los a talentos já reconhecidos que desejam aprimorar sua técnica.
Para encontrar essa preciosa gente, Domingos decidiu fazer a primeira peça do Grupo sem nenhum dos seus habituais companheiros de cena. E sim retirar o elenco (11 atores) e a equipe (13 técnicos e assistentes) de um workshop que ministrará durante o mês de novembro, com encontros preliminares na segunda quinzena de outubro.
Será um workshop intensivo e conseqüente com 10 horas de carga horária semanais. Aos sábados, domingos e quintas feiras. Esse workshop terá o título de LIÇÕES DE LIBERDADE.
Posto que a Liberdade é a maior característica da arte de Domingos. Ele pretende, uma vez terminado o workshop e a peça que os alunos estejam devidamente preparados para permanecer no Grupo Fúria ou mover-se sozinhos, criando seus próprios grupos.
Assim sendo o programa do workshop Lições de Liberdade conta com um total de 40 horas de duração e abrangerá várias facetas da atividade teatral: As noções principais da produção, da criação, da manutenção do espetáculo, da direção teatral, iluminação, figurino, cenário, divulgação, etc e, em particular, da arte da interpretação e da dramaturgia. Para teatro e cinema. Ou seja, o resumo das técnicas e filosofias do seu trabalho.
Terminado o workshop, o diretor decidirá segundo critérios previamente anunciados, quais os alunos que ocuparão as 24 funções da montagem de “O Apocalipse Segundo Domingos Oliveira,” uma peça inédita da qual ele mesmo fará o protagonista.

RESUMO

Valor do curso: R$ 1.000,00.
Forma de pagamento: metade na inscrição, metade cheque pré-datado para data do fim do curso.
Os alunos selecionados começarão imediatamente a ensaiar no Teatro Laura Alvim o “Apocalipse”. Em caso de grande número de alunos, cogita-se a criação de standins para alguns papéis, em caso de necessidade. O curso também dá direito a colocações de estágios na área técnica. Ou seja, serão selecionados para a temporada da peça:

11 ATORES
5 STAND-INS
2 CONTRA-REGRAS
1 CAMAREIRO
3 ILUMINADORES
2 ASSISTENTES DE DIREÇÃO
1 ASSISTENTE DE DIVULGAÇÃO
2 ASSISTENTES CENOGRAFIA
1 ASSISTENTE FIGURINO
1 ASSISTENTE ADMINISTRAÇÃO
OUTROS CARGOS POSSÍVEIS

Critério de Seleção:
Estes possíveis 35 alunos (aproximadamente) passam a se denominar o GRUPO FÚRIA.

Currículum do curso: (Resumo da filosofia e técnica de Domingos Oliveira)

O curso acontecerá a um currículum maleável, segundo as características do grupo, mas sempre com a finalidade precípua de PREPARAR UM ELENCO QUE POSSA ENSAIAR E ESTREAR UMA PEÇA EM 1 MÊS. Isto, porém, não invalida a existência de um currículum básico:
- semana 1: Noções básicas.
O que é isto: A Filosofia?
O Teatro?
O Personagem?
A arte de representar?
O Artista?
Leituras da peça a ser encenada.
- semana 2: O Básico Stanislavskiano:
Vôo rápido rumo à história do teatro.
Concentração
Contacto
Circunstanciação
Exercícios práticos sobre esses assuntos, leituras da peça experimentando os atores em vários papéis.
- semana 3: Prova escrita
Noções de dramaturgia.
Os truques para o ator contemporâneo: Artaud, Brecht, Stanislavski, técnicas circenses.
Condições espirituais necessárias para um ator
Primeira tentativa de seleção.
- semana 4:
Vôo detalhado das funções técnicas: a luz, o som, o espetáculo.
A Arte da TemporadaDefinição final de papéis e ficha técnica

PASSADO
Fiquei de contar a história desse retrato. Minha árvore genealógica. O passado é uma terra de ninguém, onde somente cabem heróis, grandes figuras. Entrevistei meu irmão Zé que tem mais memória que eu.
Essa foto é de 1906, a mais antiga que eu tenho. No centro, o filho mais velho, Olímpio, que veio a ser médico. Cercado pelo pai e a mãe, o poderoso Zé Pereira e Dona Sinhá (Eulália). A esquerda de Eulália, Lulu, Dadinha e Zeca (na ponta). A direita de Zé Pereira, Carmelita, minha mãe, Beata, a mais velha, e Raimundo. Todos morreram há muito tempo, grande arte é a fotografia.

Esta é certamente uma foto de estúdio. Onde aparecem 4 filhos e 4 filhas, são 8. Parece que tem mais um, que morreu muito jovem. A partir da próxima postagem, conto a história de cada um. Ou melhor, aquilo que restou na memória minha e de meu irmão.
Muitos anos depois da morte, todo homem é uma lenda.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

ATUALIDADES:

Começa hoje o Festival de Cinema do Rio. Que exibe 4 centenas de filmes. Um belo sinal da magnífica paranóia do simpaticíssimo Marcelo Mendes e sua patota do Estação. Eles foram todos cineclubistas. Agora transformados em exibidores, porém mantendo sua fidelidade à rataria de cinemateca. Que Deus conserve o Grupo Estação.
Tanto filme assim dá vontade de ver todos, o que não é humanamente possível. Ou não ver nada. Só de raiva. E é impossível evitar a pergunta: Com tanto filme, pra quê que eu vbou fazer mais um? Quero dizer, mais dois? Posto que sou o único cineasta brasileiro ou estrangeiro que tem 2 filmes estreando no festival. Até eu me orgulho da minha produtividade. E um detalhe importante: tem prêmio de Júri Popular! E nessa seria ótimo contar com vocês. Olha, a coisa funciona assim: No dia seguinte da estréia só para convidados o filme passa de manhã no cinema Odeon. A preços populares, sessão concorridíssima. No dia seguinte deste, tem 2 sessões em cinemas da Zona Sul. Nessas 3 últimas, você pode votar (Razoável, Bom, excelente, etc.) E se vocês acharem o filme excelente, eu ganho o júri popular. Entenderam bem ou querem que eu explique? As sessões do Juventude (meu filme com Paulo José e Aderbal Freire-Filho) são:

Sessão Popular no Odeon - DIA 30 DE SETEMBRO (TERÇA-FEIRA) 13H30 (o filme tem 80' de duração).

Sessão Estação Vivo 3 Gávea - DIA 1 DE OUTUBRO (QUARTA) 13H30 E 20H20 (não me acostumo com esse tipo de horário. Antigamente cinema era 2, 4, 6, 8...)

Já que o tempo é de eleições, votem em mim. Um cineasta limpo.
Fora de brincadeira, pessoal. Apareçam lá e depois me digam o que vocês acharam.
Meu segundo filme, "Todo Mundo Tem Problemas (Sexuais)" é Hours Concours. Passa lá pelo dia 8 de novembro e eu aviso mais perto.
A propósito, vi, depois de prolongada resistência, o filme do Claudio Assis, o notório "Baixio das Bestas". Não vi antes porque me diziam que era muito violento e agressivo, etc. E eu não vejo propósito para fazer filmes para exibir esses sentimentos. Além disso o Claudio é um tipo de enorme simpatia, parecendo amigo de um copo, sempre assusta um pouco depois de uma famosa agressão ao Hector Babenco durante uma entrega de prêmios, enfim, isto não tem importância, pertence ao passado. Para surpresa minha, gostei muito do filme. Gostaria que isso chegasse ao Claudio. É violento e agressivo. Mas por trás de tudo aquilo sobrevive um emocionado e inspirado poeta. E além disso, um dramaturgo. Coisa rara entre nós. As imagens são belas e bem enquadradas, revelando que a natureza não tem nada a ver com a maldade humana. E a cena da chuva, no final do filme, é um final de alta dramaturgia. Desolado e desesperado, o filme acaba numa nota menor, como acontece em muitas grandes sinfonias. Revelando inexoravelmente a compaixão do autor por seus personagens. Seu motivo de realizar a obra: um pedido de socorro para que acabem para sempre os baixios das bestas. Gostei, Claudio.


PASSADO:
Meu primeiro trabalho publicado é um conto premiado num concurso da Tribuna da Imprensa em 17 de março de 1963. O autor assina Domingos José Soares de Oliveira. E tinha 27 anos. Comecei tarde. O conto provinha de um exercício de um curso de teatro. Depois conto essa história. Meu analista da época me pediu que eu permitisse seu uso num congresso como narrativa inconsciente de um processo de nascimento! Sei lá se é isso, mas é bonitinho.
Que vai para o blog.

O TÚNEL

Estou no escuro, depois de tantas semanas, meses talvez, dentro deste lugar. Sei que estou numa enorme caverna. Mas não me lembro como vim parar aqui. Sei somente que, de vez em quando, essa escuridão tão pesada dá lugar a uma intensa claridade. É como se o Sol estivesse há poucos metros de mim. Mas não sinto calor. Somente este frio, ao qual já começo a me acostumar.
Quando a luz acende, meus olhos doem tanto tanto que os cubro com as mãos para não ver. Mas ela é tão intensa, que atravessa tudo. Abro então os olhos. Às vezes, por vontade própria, às vezes, porque me obrigam. Numa delas, insisti em apertar minhas mãos contra o rosto. Recebi, então, violenta chicotada que me causou uma ferida que vai, reta, de meu rosto até minha perna. Outra vez, foi uma facada, desferida em minha coxa. Não consigo nunca, quando abro os olhos, ver de onde vem o castigo.
Quando a luz acende, o que vejo é que estou numa imensa caverna, sem nenhuma saída possível. No chão, estou sozinho, mas, nas paredes e no teto, incrustados, debatem-se homens e mulheres. Alguns estão mutilados. Da última vez que a luz acendeu, tive a impressão de que as paredes tendem a absorvê-los, tendo até alguns já desaparecido.
Durante muito tempo me preocupei em saber se a luz acendia com regularidade ou não. Tentei, então, contar, lentamente e sempre do mesmo modo, enquanto estava no escuro. Uma vez, cheguei a mil e pouco, outra, a apenas duzentos e cincoenta, e outra, a quatrocentos. Não sei, porém, se isso significa alguma coisa, pois tenho a impressão de que não consigo controlar bem a velocidade da contagem. Além disso, estou tão cansado! De vez em quando adormeço, e talvez a luz já tenha acendido enquanto eu dormia.
A luz não acende há muito tempo. Uma idéia me assalta e atemoriza. Temo ter ficado cego, por alguma razão. Que ela já tenha acendido. Que esteja acesa agora, neste exato momento, e que eu não possa vê-la porque estou cego, por alguma razão. Penso assim, porque sinto meus olhos arderem. Além disso, não consigo ver realmente nada, por mais que me esforce. Será possível existir escuridão tão absoluta?
Da última vez que vi a caverna, notei, ao longe, se bem que não possa afirmá-lo, uma mancha escura que me pareceu a boca de um possível túnel. Logo, a luz apagou, antes que eu pudesse ao menos orientar-me. Desde então, estou tentando achar o túnel.
Primeiro, andei muito, na direção que julguei correta, procurando a parede da caverna. Nunca pensei que fosse tão longe e o chão tão irregular, o que me fez tropeçar sempre. Machuquei-me. Sim, estou nu.
Agora, palmilho a parede, úmida, em alguns lugares cortante. Encosto meu rosto contra ela e acho agradável. Permaneço assim muito tempo.
Achei o túnel! Realmente, é um buraco cavado na rocha e posso sentir que tem pouco mais que um metro de largura. É mais alto do que minha mão pode alcançar. Penetro, então, com muita cautela. Súbito, minha cabeça bate no teto. Verifico, então, tateando, que a altura do teto diminui rapidamente. Agora, já sou obrigado a me abaixar, e cada vez mais.
As pontas de meus dedos, que vão na minha frente, encontram, formações cilíndricas, estalactites, como uma harpa. O túnel tem agora pouco mais de meio metro de largura e, no máximo, um e meio de altura. Penso então que ele diminuirá sempre e não terá saída. Resolvo tentar a passagem, quebrando as estalactites. Tento primeiro arrancá-las, separá-las, com as mãos. Não consigo, são fortes. Experimento então um pontapé e quebro uma. Depois outra e outra. Consigo então passar, embora tenha de virar de costas. Logo, me oriento na direção certa.
O túnel baixa seu teto, cada vez mais. Quero, pela primeira vez, voltar, porém, noto, olhando para a frente, qualquer coisa como uma vaga luminosidade. Também o ar me parece um pouco mais leve e talvez eu sinta menos frio. A esperança de que o túnel me conduza à liberdade me reanima.
Meu próximo passo encontra o vazio. Sim, há um buraco na minha frente e todo cuidado é pouco. Ajoelho-me, perto da borda, para examiná-lo melhor. Minha mão não consegue tocar a outra borda. Experimento jogar dentro dele um pedaço de estalactite. É tão fundo que não ouço nada, além do silvo da estalactite cortando o ar. Fico apavorado, quero desistir, mas a tênue claridade me obriga a continuar. Junto às paredes do túnel, pequenas saliências, pouco maiores que meu pé, ladeiam o buraco. Poderei passar, andando de pernas abertas, caso queira correr o risco.